Fátima Remédios

 1


SOU

Sou cada Sonho, em cada Primavera
Espiga de trigo, entregue e ondulante
Sou o fio de horizonte à minha espera
A mãe que acolhe o filho, radiante.

Sou gargalhada limpa, refrescante,
Sou liberdade no fluir de um rio
Sou Ave que luta contra o vento,
E terra cheia, numa tarde de Estio.

A paz tão almejada, no tormento,
A noite escura em busca do luar
Sou a manhã que nasce em novo alento
A entrega que tanto quis negar.

Sou fruto que já foi semente
Sou sol ardente, esperança do Amanhã
Sou o cair da folha, impotente,
Sou pura neve na montanha vã.

Sou o medo e a coragem num só Grito 
Que o vento embala e leva até ao Mar
Sou o vaivém do Tempo, que Perdoa
Aquele que ousar Acreditar.

Sou o Louco, o Sábio, o Eremita,
O Bobo, o Sedutor, o Serviçal,
A Criança em vestido de chita,
O Crente, o Cético e o Magistral.

Sou o Tudo e o Nada num momento
O êxtase, a dor, o Bem e o Mal.
A força do Vazio, que, plenamente,
Traz a Verdade nua, intemporal.

Do ciclo que volteia, em espiral
Sou o Renascimento em cada dia
Jogo contínuo, Sagrado Despertar,
Que aceita, até, a Morte, a Alquimia.

Sou o eterno Ser em construção
E a Demanda honesta e leal
Sou o Caminho que te liga ao Céu.
E, enfim, a descoberta do Graal.

Sou o questionamento e a resposta
O cálice, a espada e o troféu
Sou o Princípio e o Fim da Noite Escura
E Aquele que, por fim, desvenda o Véu.

Sou o Saber oculto no silêncio
O Verbo que se quer, Hoje, escutar,
Sou a Certeza que Resiste ao Tempo
Pois Ele, Aqui, não tem Lugar.

Sou o Tudo e o Nada num instante
Que a Tudo e Todos Urge Abraçar.
Sou a Vitória sempre alcançada
Mistério derradeiro e triunfal.

Fátima,  2020

2

(H)ora 
A hora marcada desvanece o tempo
Vem trazendo novas da luz esplendor 
Murmúrio soprado na copa sagrada
Um lento bailado, compraz agradada
O véu esbatido, cume do pastor. 

À hora marcada o tempo entretece
Acontece o vento com todo o rigor 
E então quietude, fugaz, nem consente 
Em tamanha paz, sequer indolente 
Sequer um trinado, sequer um fulgor. 

É talvez pecado, este lado ousado 
Aqui um bocado me tenho e me digo
Mas quero saber onde tenho andado?
Deitada na terra, do céu meu amado
Por me pertencer, sou feliz, consigo.

Na hora chegada o tempo emudece 
O céu emudece o seu firmamento 
Na hora marcada parece que esquece
Parece que esquece que o mar já aquece
Parece que esquece a luz do momento. 

Na hora chegada, havendo mais nada
Pairando no ar, evola um momento 
E sempre a voar, já sem precisar 
P'ra chegar ao céu, atravessa o mar
Sequer uma escada, sequer um lamento.

Na hora sagrada é ele a chegar
É ele a chegar lá no firmamento 
E sempre a voar se quer precisar 
P'ra chegar ao céu só tem de voltar 
Só tem de voltar a ouvir o vento.
Namora o luar a voz do sustento.


3

Escucha celos de rosas 
Valerosas madrugadas
Por esos valles hermosas
Por donde sales cerradas.

Escuchas celos de rosas
Poderosas ensenadas
Por Dios, serenas dichosas
Por las pequeñas entradas.

Las estrellas relucientes 
Cruces de honor grabadas 
Son las promesas pendientes 
Son las urgentes lhamadas.

Cielo que escucha semillas
Por las primeras cruzadas
Ellos cumplem de rodillas
Las palabras tan amadas.
 
Flores que abren sencillas 
Entre tus mimosas manos
No lhores, hay maravillas
Entre padres e hermanos.

31.03.22

4

SONHO

Gentil Alma Sonhadora
De olhos postos no Céu
Viajante desse Tempo
Onde Nada se perdeu.

Escuta o Som das Estrelas
E o Sussurro do Mar
Encontra a Chave sagrada
Do que está para Chegar.

Celebra o Uivo do Lobo
Possante, na escuridão
Nessa montanha encantada
Estás atento, Meu Irmão.

Relembra um Mundo Escondido
Visível a Quem Quer Ver
Onde o Tempo é teu Amigo
E Te podes Conhecer.

Recorda a Força latente
Do Leão Adormecido
Ele conhece o Segredo
Daquele Mundo Esquecido.

Sabe da Leoa Brava
Que a Todos nutre e conduz
A uma Terra Prometida
De Amor, de Esperança, de Luz.

Tanta abundância na Terra
Criador e Criação
Não esqueças os Antigos
A todos estende a mão.

Ama Esta Gente Valente
Que sabe o que faz Aqui
E em tempos de Prova e Fé
Em vez de chorar, Sorri.

E, se puderes, Aprende
A História do que Vivi
Deixa que o Sonho te mostre
O que pode ser p’ra Ti.

29.11.20

1.

5

Será...?

:-)


Quis fazer hoje um poema
Mas não tive inspiração 
Verão bem: sequer o tema 
Veio p'ra dar uma mão!


Quis mostrar hoje um poema 
Mas não houve ocasião 
Nem sequer a alfazema 
Encontrou o meu condão!

Quis mostrar minha ciência 
Um talento de louvar
Verão bem: haja paciência
O poema por tardar!

Como água no deserto 
A palavra por nascer
E eu, neste traço incerto 
O poema por beber!


A força de um poema 
Que teima em não se mostrar 
Será razão ou esquema
O seu segredo guardar?

E nem sei mais que vos conte
No olho do furacão...
Depois vem no horizonte 
Acalmia junto à fonte, 
Junto à fonte, ao serão.

7

Cavalo branco à solta peregrino 
Seguindo o seu destino rumo ao sol
E este vento forte ecoa o sino
E a luz gira incessante no farol.

Amá-lo sempre e em dia menino
Cavalo negro atroa em esplendor
E este tempo agreste entoa o hino
E a cruz mostra inclemente o tom do amor.

Buscá-lo no furor em temperança 
Assim faz quem avança, sente a hora
No puro olhar como o de criança. 

Se o céu diz em segredo e assim cora
O solo sente o passo e a esperança 
Na marca indelével de um agora.

8

Por entre os escombros da terra a arder 
Por entre a coragem da alma inquieta
Lembrando a semente que soube vencer 
Ergue-se de novo a voz do poeta.

Na força do ombro houveram de ver
Por entre a voragem, de fome repleta
Ecos da ramagem, o som por dizer
E o sol por nascer, paisagem dileta.
Desolada e e triste da sombra que viste
Vens talvez buscando a luz do olhar
Houvera de ser, luar que sentiste.

Mensagem secreta já deixa passar
Tão longe é o mar, mas o rio subiste 
Houvera de ser amor por amar.

10.

Despe-te de tudo, menos da jornada 
Enche-te de nada, num colo qualquer 
Vai passando o tempo, qual suma balada 
Em lentos acordes de um puro mester.

Enche-te de paz pela madrugada 
Despe-te de sizo num sonho qualquer 
Vem balindo a neve na noite fechada 
Vai erguendo o vento que tanto te quer.

E na hora queda, de deslumbre tanto
Presa nesse encanto por alvorecer 
É a orvalhada que enternece o manto

E na abalada ouve-se dizer
Oh beleza rara, entretece o espanto
E o céu implora, falta acontecer.

11


Tributo a Florbela 

Gosto de ti, oh Primavera incerta
Dos ermos caminheiros namorados
Como ribeira brava que desperta 
Dizendo novamente velhos fados.

Gosto de ti, oh dulce Dulcineia
Dos ternos nevoeiros perfumados
Sonhando um dia ver a margem cheia
Rezam altares, dedos desolados. 

São tantos os mistérios que os alumbram
No circular eterno, sem favor
Enquanto as horas altas se deslumbram

No compasso certeiro do condor
As aves que no céu por mais descubram 
Suspiram pelo tempo abrasador.

12

Vou


Perguntei à corça e ao veado
Perguntei à foca e ao leão 
Do clamor que havia começado 
Comunguei, havendo ocasião. 

Perguntei à nuvem e ao silvado
Velejei sem rumo e sem brazão 
Sem brazão não vão a nenhum lado 
Mas de pé, havendo comunhão

Velejai num caminho apurado
Sem cegar o mar em contramão 
Tornará ao rumo anunciado 
Ensaiai biscoitos de razão.

Comungai do tempo consagrado 
Pois as novas saias é que são 
Reparai: o fruto do passado 
Roçagai a casa que é, verão. 

E amai o rio apaixonado 
E gozai da flor e do condão 
Perguntai à voz deste mondado/ condado
Aclamai A asa da paixão. 

13

Nego nenhuma parte de mim
Trago no teu peito todas elas 
E ao jeito navego, fico assim
Longe erguem-se nobres sentinelas.

Pego no botão e fico em mim
Entrego ao teu peito todas elas
Ao largo caravelas de jasmim
Sossegam brisas frescas nas janelas.

Emprego o manto alto das ameias 
No vento moram velas e esperanças
E o canto sussurante das sereias.

Evocam lentos tempos, outras danças 
Tão belas as ruelas incendeias
Sibila o sangue quente, veias, tranças.


14


Sorte boa 

Em dia são, bem soado
Dia de haver presente 
Um gato preto safado
Surgiu, lazeiro, a meu lado
Um gato preto luzente!

Em dia santo, lacrado 
A meu lado, claramente 
Surgiu um gato miado
Negro pêlo e aguçado 
Olhar rico e previdente!

E também, oh, que surpresa 
Um outro gato o seguiu 
Surgiu lampeiro, imponente
Ali na estrada, rente
A feiticeira os cerziu?

No céu, a lua crescente 
No mar, a vã acalmia
Na terra, a cor cinza quente
Como panela pendente
Que a procela precedia.


E ela bem os mirava
Enquanto a terra lambia
Olhava seu pretendente
Pura prata permanente 
Enquanto o céu aquecia.

Nem por instante fechava
Na sua franca ousadia
Branco mirar penetrante 
A pensar no seu amante 
Sua secreta magia.

Outro gato namorava 
Também além nesse dia
Goza prato recheado
Em dia santo molhado
Mas esse, ui, nem se via!

Que sorte, pensei, sonhada
Ter dois gatos nesta via
E assim segui encantada 
Cada vez mais namorada
Mais um conto, mais um dia

Sem comentários:

Enviar um comentário