Origens
Cavaste, pioneiro, a terra virgem
E ai inseminaste um mundo novo…
Viveste a aventura da origem.
Eu hoje, não te acuso, nem te louvo.
Nas tuas veias, sangue do meu povo,
Trezentas gerações, uma vertigem.
Sobreviveste em mim e eu me comovo,
Ainda sinto os medos que te afligem...
Teus filhos, como os meus, donos da terra,
Quiseram melhorar o paraíso,
E, ao virar da esquina, estava a guerra.
Ainda penso em ti, com um sorriso,
Erraste? Mas, amigo, quem não erra?
Pois ser humano é ter falta de siso...
Amazónia
Há uma Amazónia em cada Ser
Com feras perigosas de verdade
O mundo natural, a liberdade
De estar em guerra e paz e de viver.
Respiro os sons da mata, anoitecer
À sombra de gigantes, sem maldade,
Um dia, no presente, a gente há-de
Voltar à Natureza, sem saber…
Um Rio, mais que um rio, a navegar
Mitos da Cobra Grande, a omnipotente
Matintas, Curupiras a espreitar
E os índios resistindo firmemente.
E este mundo aqui, todo a gritar:
Meu Amor Amazónia está na frente.
Bonecos de Estremoz
Ecos de um tempo morto e enterrado
De gente rente â terra, olhando o céu
Boneco eco, lógico e encantado
Levantado do barro, como eu.
Boneco, meio profano, meio sagrado
Corpo de barro/carne, como o meu
Da noite fria, enfim ressuscitado
Como fogo luzindo sobre o breu
Figuras, como nós, quatro elementos
Suspensas entre o sonho e o real
Moldadas por milhões de pensamentos
Num tempo de ilusões a rebentar
Renasceu deste modo natural
A arte que é cultura popular.
Quadras soltas
Toda a escuridão tem luz,
Toda a montanha tem vales
O sonho que te seduz
Sobe e desce. Não te rales...
Cada norte tem seu sul
Cada ocidente, seu leste
Todo o mar tem céu azul
Todo o bem, um lado agreste.
Não sei de tempo sem espaço
Nem sei de vida sem morte
Tudo o que faço e desfaço
Me faz fraco, me faz forte...
O universo é escuridão,
Por onde a luz se derrama.
Negro e frio, imensidão,
Que lá do fundo nos chama.
O Mar da Tranquilidade,
Muito mais Morto que o dito,
Não é mar, mas sei que há-de
Amarar no Infinito.
Eu já fui um ser marinho,
Nessas águas maternais,
Em que a vida fez o ninho
E emergi com os demais.
Águas dos rios sagrados.
De nuvens, metamorfoses,
Glaciares encantados,
Aguas livres e velozes.
Percorre-me água por dentro.
Meus olhos baços, lavados,
Esmorecem, quando centro,
O meu olhar nos teus lados.
Ando à deriva, sem bote,
Perdido num mar sem fundo.
Como décimas sem mote,
Nas tempestades do mundo.
Os
silêncios
Silêncio dos inocentes.
Muitos ais silenciados.
Quando te calas, consentes
Os gritos amordaçados.
Dizem que o silêncio é de ouro,
Mas não reluz, que eu bem vejo.
Se me calo, amor, estouro
Queimo as asas do desejo.
Muito falas, pouco acertas,
Só ruído no silêncio.
Bom ter janelas abertas
E quem tiver medo, vence-o.
O silêncio tem virtude.
Tudo o que há para dizer,
Seja mais doce ou mais rude,
Só pode ser para esquecer.
Silêncio! Vive -se um fado,
Tão triste como esta vida.
Haja respeito, coitado,
Não façam sangrar a ferida.
Silêncio! Porque a verdade
É tudo o que já foi dito.
Se rima com liberdade,
Não rima com infinito.
Vamos poupar as palavras,
Serenos, como eremitas.
É na terra onde não lavras
Que as flores são mais bonitas.
Silêncio não é clausura,
Mas uma janela aberta.
A liberdade futura
Só precisa ser liberta.
Sem palavras, pinto o céu,
Pinto alegrias e dores.
Quebro o silêncio do véu,
Rasgo a noite com mil cores.
É no silêncio que a gente
Ouve o coração pulsar.
A gente pensa, a gente sente,
Só precisa de escutar.
O Amor é Cego
Quando a luz incide crua
À noite, pura magia
É aliado da Lua.
Tanta cegueira amorosa
Descrevendo voos rasantes
Cheira a cravo, cheira a rosa
Cheira ao corpo dos amantes
Amor é cego e não sabe
Os tombos que a gente dá
Mas, dentro de lo que cabe,
Toda a gente tombará
O amor é cego, mas
É só figura de estilo
Ele vê por detrás das
Artimanhas do sigilo
Quadras da natureza selvagem...
Dançam luzes na clareira,
Distúrbios da velha ordem.
Nasce a ordem verdadeira,
Para que os elfos acordem.
Somos filhos das florestas,
Não somos donos da terra.
Olhai as ervas modestas:
Fazem a paz, não a guerra.
Amor incondicional:
Cooperar é viver.
Uma memória ancestral
Que vem da raiz do ser.
Olhar à volta e ver,
Com o olhar da infância
Um mundo a empobrecer
Afogado em abundância
Décimas
A
crise
A crise que assusta a gente
A mãe de todas as crises
Faz a vida ser diferente
Do fruto até às raízes
O mundo virou global,
(Mesmo sendo a terra plana…)
Numa escala desumana,
Contra o mundo natural.
Perdeu-se a lei geral.
Apodreceu a semente
Da verdade. Simplesmente,
Somos ricos, mesmo pobres.
E, de repente, descobres
A crise que assusta a gente.
Cidadão do Universo:
Nem ateniense, nem grego.
Sou da terra onde me apego,
Gosto de um mundo diverso.
A minha língua é meu berço,
Língua de muitos matizes.
Mas olhas à volta e dizes
Que todos somos irmãos.
Quinze biliões de mãos:
A mãe de todas as crises
É preciso decrescer,
Dominarmos o desejo,
Neste futuro em que vejo
Tanta incerteza nascer.
A casa está a arder!
Este consumismo urgente
Assassino, incoerente,
É que consome as entranhas.
Mas fé que move montanhas
Faz a vida ser diferente.
Sempre a vida teve perigo,
Sobreviver é uma guerra.
E a morte, que tudo encerra,
É o maior inimigo.
Dito isto, meu amigo,
Vamos tentar ser felizes.
Respeita o chão que pises,
O ar, a água, outros seres,
Para assim reverdeceres
Do fruto até às raízes.
Adega do Gapete
Na Adega do Gapete
O vinho, sangue divino,
Ou nos atira ao tapete
Ou nos faz perder o tino
No Redondo dos louceiros
E de ilustres cantadores,
Gente de muitos amores,
Todos eles verdadeiros.
Entre vales e outeiros,
Terras de vinho e de azeite.
Muita tasca, que deleite!
No Pau Preto e no Benvinda,
Na Cova Funda e ainda
Na Adega do Gapete.
Sente-se o cheiro a madeira,
Coisas velhas e memórias.
Contam-se tretas e estórias,
Bebe-se um copo à maneira.
Petisca-se a tarde inteira,
Vai-se a vergonha e o tino.
Pois, nas voltas do Destino
Perdemos tudo o que amamos.
Mas, até lá, celebramos
O vinho, sangue divino.
Às vezes, há cantorias,
Momentos de comunhão.
Traz o queijo, traz o pão,
Venham conversas vadias,
Tristezas e alegrias
E mais o diabo a sete.
Livra-te da internet!
Vamos lá provar o vinho:
Ou nos salva, o São Martinho,
Ou nos atira ao tapete.
Entre instrumentos antigos,
Alambiques e licores,
Ficam juntos os amigos
E, às vezes, os amores.
Gente de todas as cores
Copo de 3, copo fino,
Velho que torna a menino,
Como o vinho de reserva,
Que para sempre nos conserva
Ou nos faz perder o tino
Na raiz da Utopia
Somos livres por destino
Como as aves, como o vento
A vida, não a confino
Nas grades do pensamento
Somos a parte de um todo;
Somos um todo integral,
Meio deus, meio animal,
Entre as estrelas e o lodo.
Mas não caias no engodo:
Ser livre é ser clandestino,
Não ter bandeira, nem hino,
Clube, partido ou capela.
Não serve nenhuma cela,
Somos livres por destino.
A liberdade é saber.
E a natureza sabe
Que ser livre é ter poder,
Ter a parte que nos cabe…
Antes que o mundo acabe,
Vamos viver o momento,
Livres como o firmamento,
Ou como as ondas do mar.
Donos de ir ou de ficar
Como as aves, como o vento.
São luzes, as utopias,
São as asas do desejo
São um sopro benfazejo,
Por sobre a espuma dos dias.
São sonhos e fantasias,
Paraísos que imagino,
Ecos de um tempo pristino.
Amigo, a liberdade
Rima com diversidade:
A vida, não a confino.
É complexo o mundo humano.
Muitos interesses em jogo.
Luta a água contra o fogo,
Todos ganham algum dano.
Ser livre, num tempo insano,
Como é este momento,
É não ser mais que o fermento.
Ser livre, contra a razão,
É prender o coração,
Nas grades do pensamento
Versos fora do eixo
Dos astros errantes
Como o destino.
Órbitas sem fim.
Hoje, amanhã, dantes,
Amo e abomino
Este frenesim.
Meus olhos no céu
Em noite sem lua
Todas as estrelas
São faróis de breu
São verdade nua
Ou mentiras belas?
Sei da alquimia
Certa exatidão
Que nos transfigura.
Vou saudar o dia
Nesta escuridão
Nesta ditadura.
Pois, queiras ou não,
O que arde é que cura.
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